Perê apareceu
O saci de Daniel Moraes salva a sexta-feira
Hoje é 31 de outubro. Figurinhas de whatsapp, enfeites de lojas e algumas crianças fantasiadas me lembram de que é Halloween, o dia das bruxas. Desde cedo, abóboras de pixels e plástico aparecem no meu caminho.
Em busca de sacis, encontrei Perê, de Daniel Moraes, lançado em boa hora pela Nanabooks.
A obra convida a um passeio por lugares escuros, estranhos, mágicos. Perê espera entre folhas e luas minguantes.
Há muitas surpresas no livro, que começam quando o pego para ler. Daniel brinca com a materialidade do formato tradicional do livro impresso, (ainda) tão conhecido.
Ao contemplar a capa retangular, percebo que preciso girá-la para abrir o livro. Maravilha! Gosto que um livro sobre saci me obrigue a desviar de caminhos conhecidos de leitura.
Seguro o livro com as duas mãos, como um mapa antigo, e entro na história, que parece um poema.
Foto de Perê aberto, a pisada prolongando-se pela mesa.
A voz surge clara nas sombras das páginas, riscadas com carvão: “Eu o espreito/ sempre/ às sombras”. Perê é poema, sim.
Uma lua baça e uma árvore magra, recortadas de outros papéis, iluminam a paisagem. A técnica me agrada muito: as figuras cortadas me fazem pensar na perna (cortada?) do saci; o carvão, na sua pele. Um pé, único, rápido, emerge das sombras.
Não vou contar como Perê aparece. Pulo páginas, que você vai virar por sua conta, e viro o livro de posição outras vezes, para acompanhar o “jeito único de andar” de Perê, por paisagens recortadas de sonhos, de saudades, de assombros.
Recortes se repetem nas páginas, sons se repetem nos versos. Ando em círculos pela floresta de significados e significantes, encantada. Uma libélula de três asas me acompanha, desde a capa.
Perê recria as formas tradicionais do livro e as formas tradicionais do saci-pererê. Suas páginas pedem giros corporais e intelectuais: os olhos vermelhos, a perna única, a pele negra não são, afinal, estigmas; não são, nunca deveriam ter sido, marcas de maldição e monstruosidade. São Perê. Lindo e livre.
Leio na contracapa: “Daniel Moraes estreia com uma obra que é ao mesmo tempo memória, mito, manifesto”. Contracapas podem ser folclóricas, no mau sentido, mas essa linha me soou muito verdadeira. Perê é perfeito como é.
Daniel Moraes é Artista, Educador Def e muito mais… um bom ponto de partida para conhecer seus trabalhos é o site pessoal do criador de Perê.
Artistas do passado também criaram e recriaram sacis. As primeiras representações de sacis da literatura infantil brasileira surgiram nos livros Lendas brasileiras (1908), de Carmen Dolores, e Era uma vez… (1909), de João do Rio e Viriato Correia. Os sacis que encontramos nesses livros, porém, não são negros, mas gregos… disfarçados.
Explico essa história na palestra “As primeiras representações do Saci e o seu diálogo com a Antiguidade Clássica”, que aconteceu na Academia Brasileira de Letras, no ano passado. O evento foi organizado pelo Grupo de Pesquisa Fabula, coordenado pela Profa. Dra. Katia Teonia, da UFRJ, e mediado pelo acadêmico Godofredo de Oliveira Neto. Você pode assistir à palestra no canal da ABL no youtube.
O sacy (1921), de Monteiro Lobato, foi a primeira obra infantil brasileira a ter como protagonista um saci (e herói) negro. Voltolino fez as magníficas ilustrações do livro. Em 2022, Magno Silveira lançou, pela editora Graphein, uma linda edição fac-similar do livro, hoje muito raro. Saiba mais sobre a edição (que já vai também se tornando rara) no site da editora.
Vivas e mais vivas aos sacis!





