Mestre ou monstro?
Perguntas simplistas e respostas complexas sobre Monteiro Lobato e sua obra
Abril é o mês mais cruel para quem pesquisa a obra de Monteiro Lobato. No dia 18, aniversário do escritor, comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil. Como acontece todo ano, há mais de uma década, as perguntas sobre Lobato começam a se avolumar no começo de abril, vindas de nascentes diversas, até formar um grande rio que se espraia pelas minhas caixas postais, redes sociais, aulas presenciais, conversas informais e outros ramais.
— Professora, vi no TikTok que é um absurdo o Dia Nacional do Livro Infantil ser a data de aniversário do Monteiro Lobato, aquele racista podre. O que você acha?
—Oi, te achei no Instagram. Você poderia dizer se o Jorge Amado era amigo do Lobato? Tem uma trend cancelando o Jorge Amado por racismo, você viu?
— Olá, aqui é do jornal Tribuna da Arara Azul. A senhora poderia responder brevemente se Lobato está mesmo cancelado?
Essas e outras mil perguntas são sementes que, caso plantadas nos campos da História, da Sociologia, dos Estudos Literários, e regadas com estudo sério, paciência e tempo, poderiam virar reflexões e debates vicejantes sobre ética e estética, que cresceriam na forma de árvores robustas do conhecimento. Só que não.
As respostas têm de ser curtas, portanto rasas, porque as redes sociais rejeitam “textão”, os jornais e revistas vão ficando parecidos com as redes sociais, e até os debates acadêmicos não podem demorar mais do que meia hora, porque a disputa por atenção é cerrada e as pessoas têm mais o que mexer no celular.
Não é novidade que algoritmos programados para o mal têm pautado o que devemos debater, até mesmo nos espaços da universidade. Estou convencida de que os robôs das redes são mesmo os grandes editores de conteúdo desse oceano de informações onde estamos mergulhados, talvez por naufrágio. Para quem estudou, como eu, o poder dos editores de jornais e livros, a situação é assustadora.
Parece que estou desviando do assunto, mas é que o binarismo (gostei/não gostei) das redes sociais está reprogramando nosso modo de pensar e de viver. Quando o debate sobre o racismo de Lobato começou pra valer, há cerca de 15 anos, eu acreditava que as discussões seriam muito saudáveis para nós, brasileiros, aprendermos mais sobre dinâmicas do racismo, produção e circulação de livros, história da literatura, escrita da história e mais mil problemas. Só que não.
Lobato virou uma espécie de símbolo do racismo brasileiro, provavelmente porque é dos poucos escritores que todo mundo conhece, tendo lido ou não sua obra. Como acontece com toda pessoa transformada em símbolo, ele deixou de ser visto como um indivíduo com facetas diversas, singularidades, contradições e complexidades, e virou a representação de uma ideia única.
Sua identidade multifacetada e sua obra multiforme foram aplainadas no processo de adequação de sua figura a certas expectativas e disputas coletivas. O resultado é um clichê simplório, facilmente reconhecível em vídeos de um minuto em redes socias; um fantoche que pode ser manipulado tanto por quem o julga um Monstro sem matizes como por quem o considera um Mestre sem mácula.
Dá pra entender porque isso aconteceu com Lobato, mas também dá tristeza. Em vez de condensar em uma figurinha simbólica e inútil os imensos impactos da desigualdade brasileira na produção e no consumo de literatura, nós poderíamos ampliar o nosso escopo e aprender muito mais sobre nossa história. Só que não.
Tempos atrás, criei este blog para publicar roteiros de aula, textos de crítica e história literária, palestras e outros cacarecos do meu bricabraque pessoal. É um espaço onde posso escrever “textões” inadmissíveis em outras redes. Mesmo assim, não consigo tratar aqui de todas as perguntas sobre Lobato como se deve: com argumentação fundamentada em pesquisas, em teorias sofisticadas, em muitos anos de muito estudo.
Para não dizer que não falei de Lobato publicamente neste abril, tirei do arquivo uma entrevista concedida a um jornal meses atrás. O repórter que me contatou estava fazendo matéria sobre Monstros: o dilema do fã, de Claire Dederer. O tal dilema é aquele conhecido das trends e tretas virtuais: dá para separar a obra de artistas como Roman Polanski, Woody Allen, Pablo Picasso, John Lennon e tantos outros das ações criminosas/perturbadoras/imorais/condenáveis cometidas por eles?
O jornalista pensou em Monteiro Lobato como exemplo de “monstro brasileiro” e me enviou três perguntas, que são as mesmas repetidas todo ano. A matéria não foi publicada, e minhas respostas estavam na gaveta. Correm soltas a seguir, expandidas em textão.
Cancelar ou não cancelar, eis a (falsa) questão
1. Volta e meia, Monteiro Lobato é acusado de racista e sua obra, ameaçada de cancelamento. O que a senhora pensa disso? É possível dissociar o autor da obra?
De fato, Monteiro Lobato escreveu cartas de teor racista e há várias passagens racistas em suas obras literárias, o que tem levado muitas pessoas a defenderem o cancelamento do autor e de seus livros. Para explicar o que penso disso, vou recorrer a uma passagem do livro Monstros, de Claire Dederer, traduzido por Joca R. Terron:
Consumir uma obra de arte é o encontro de duas biografias: a biografia do artista, que pode atrapalhar a visualização da arte; e a biografia do espectador, que pode moldar a recepção da arte. E isso ocorre em todos os casos.
Faz parte da minha biografia de professora de literatura uma série de conhecimentos que moldam a minha recepção da arte que Monteiro Lobato produziu. Como eu pesquiso a história da literatura infantil brasileira há trinta anos, conheço bem os textos para crianças que circulavam no Brasil desde a Independência até a época em que Lobato publicou sua obra.
Nesses livros, hoje esquecidos, o racismo é brutal: pessoas negras ou são invisibilizadas — como se não existissem no país —, ou são representadas como escravizadas, brutas e brutalizadas, ou, ainda, são associadas a todo tipo de vício e crime. A pele negra, em obras anteriores e contemporâneas a Lobato, é quase sempre associada à maldição e à maldade.
Parte de minhas pesquisas sobre esse tema está publicada no artigo Reescrevendo a narrativa: racismo em livros infantis da época de Monteiro Lobato, (Revista da Abralic, 2021). O texto Lobato e o racismo propõe reflexões a partir da mesma pesquisa, em tom mais informal e com dados diferentes. Está no site Uma menina centenária: 100 anos de Narizinho, da Usp. Se você quer um panorama rápido das minhas investigações, veja a palestra Formação da Literatura Infantil Brasileira (1822-1922), realizada na XX Semana de Letras do Campus Pantanal da UFMS, no mês passado.
Para você ter uma ideia da dimensão do racismo na nossa literatura infantil, os primeiros sacis a aparecerem em livros nacionais para crianças não eram nem indígenas, nem negros, como nas lendas — eram gregos. “Medo de saci”, de João do Rio, publicado no livro Era uma vez (1909), é na verdade uma fábula de Esopo, com um saci branco e peludo no lugar de um sátiro. “O saci-sirerê”, de Carmem Dolores, publicado em Lendas brasileiras (1908), tem exatamente o mesmo enredo de um conto dos irmãos Grimm, que por sua vez modifica a lenda grega de Baucis e Filemon; o saci, de pele branca e pálida, foi posto pela autora no lugar do deus Júpiter. Sério.
Por que autores mestiços como João do Rio e Viriato Correia publicaram livro infantil com saci branco? Sátiros gregos provavelmente eram mais aceitáveis em livros infantis do que sacis negros. Autores de obras para crianças estão sempre ligados em seus públicos, que são formados primordialmente por pais, parentes e professores.
Em “O moleque da carapuça dourada”, do livro Contos da avozinha (1896), de Figueiredo Pimentel, há um personagem muito parecido com o saci: um menino negro, que fuma cachimbo e surpreende viajantes numa estrada. Quem roubar sua carapuça fará dele um cativo. No conto, esse menino é o próprio diabo, que mantém princesas brancas presas no inferno e espanca quem não lhe dá fumo. É um bom exemplo de como a pele negra estava associada a maldições e crimes em livros para crianças.
O livro de Pimentel com esse conto (que é também homofóbico) continua sendo vendido em novas edições; no anúncio de uma delas, lê-se que “cada história é um abraço afetuoso, envolvendo-nos com sua ternura”. A capa tem até uma princesa negra, o que é de um sarcasmo editorial espantoso.
Explico mais sobre a representação de sacis e o racismo na literatura infantil daquela época em duas palestras: “As primeiras representações do Saci e o seu diálogo com a Antiguidade Clássica”, ministrada na Academia Brasileira de Letras em 2024, e “Um satirozinho pitoresco: Monteiro Lobato e as metamorfoses do saci”, proferida na Universidade de Taubaté (UniTau) no ano passado.
Monteiro Lobato, por incrível que possa parecer, foi o primeiro autor de livros infantis a representar com traços positivos personagens negras e elementos culturais afro-brasileiros. Seu livro O saci, de 1921, é o primeiro livro brasileiro para crianças protagonizado por um herói negro. Que esse herói seja um saci, e não uma pessoa… não é muito difícil de entender, quando sabemos que nos livros infantis em circulação não existiam protagonistas negros e até os sacis eram brancos.
Em Narizinho Arrebitado, lançado naquele mesmo ano em edição escolar, lemos passagens em que tia Nastácia cuida da protagonista, ensina-lhe várias lições de vida, em linguagem bastante poética, e a chama de “minha nega”, algo então inédito em livros nacionais para crianças. Esse e outros trechos foram omitidos ou modificados em versão posterior do livro, Reinações de Narizinho (1931-34).
Há indícios de que Lobato procurava atender a pressões de diretorias de ensino para que seus livros fossem adotados em escolas. Examino alguns deles no livro Figuras de autor, figuras de editor: as práticas editoriais de Monteiro Lobato, de 2018. Como os sistemas de ensino eram racistas, conforme especialistas de hoje, talvez o protagonismo de Tia Nastácia tenha sido diminuído, e falas como “minha nega” tenham sido removidas. Problemas assim nos lembram de que não é possível fazer estudo sério sobre racismo em literatura infantil sem levar em consideração sistemas educacionais, modelos pedagógicos e literários consagrados, entre outros fatores.
Apesar dos trechos racistas em alguns de seus livros, Lobato pode ser visto como o autor que começou a mudar a representação extremamente preconceituosa feita até então de pessoas negras em livros infantis. Ameaças de cancelar seus livros, portanto, são injustas. Aliás, qualquer cancelamento é inaceitável.
Conheço algumas bibliotecas nas quais Monteiro Lobato já foi “cancelado” e seus livros, descartados ou escondidos. Em todas elas, encontrei os livros muito mais preconceituosos e muito menos artísticos de Figueiredo Pimentel.
Já ouvi bibliotecários protestando contra Lobato nos seguintes termos: “aqui ele não entra, porque era racista”. Costumo responder com provocação: se é assim, por que estou vendo nas estantes muitos exemplares de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, Peter e Wendy, de James Barrie, Pinóquio, de Carlo Collodi, Mary Poppins, de P.L.Travers, Pipi Meialonga, de Astrid Lindgren, contos de Hans Christian Andersen, obras de Jules Verne, Arthur Conan Doyle, Rudyard Kipling? Esses livros têm passagens racistas e são muito debatidos no exterior. A biblioteca da York St John University, na Inglaterra, alerta que as obras de Barrie, Carroll e Verne podem conter exemplos ofensivos de “supremacia branca”. Sim, há polêmica lá, como aqui.
Minha provocação serve para pedir diálogo e reflexão quando os canais estão fechados. Nenhum livro deve ser banido de bibliotecas, essas instituições criadas por povos escravocratas.
Fazer literatura é uma prática social. Todos os livros estão impregnados de ideologias que circulavam (e circulam) nos tempos e lugares onde foram criados. Autores do século XIX e começo do XX quase sempre eram racistas, colonialistas, homofóbicos, machistas… Além disso, as biografias de autores de clássicos costumam ser cheias de “máculas”, como diz Claire Dederer. Para muitos críticos, Lewis Carroll era um pedófilo que tirava fotos de meninas nuas. Felix Salten, autor de Bambi, teria publicado pornografia infantil. Será possível cancelar Alice e Bambi, que escaparam das edições originais e vivem em tantas outras produções artísticas?
Veja só o problemão: a gente não debate para valer as relações entre autores e obras, ética e estética, livros e leitores etc. A gente constrói uma figura plana e simbólica de Monteiro Lobato, faz vídeos curtos e raivosos contra essa figura, e acha que está resolvendo questões complexas das esferas da arte e dos direitos humanos. Só que não.
Para terminar (em termos) a resposta a essa pergunta, ressalto que outros leitores têm biografias diferentes, com outros conhecimentos de vida e de leitura, e seu encontro com os livros de Lobato será muito diverso do meu. Muitas pessoas comparam os livros de Lobato aos que circulam hoje, o que leva a outros tipos de interpretação.
Se os leitores forem crianças, as leituras serão muito distintas das feitas por adultos. Se forem crianças negras, que já acumulam experiências de racismo, como é comum no nosso país, é provável que a leitura dos livros de Lobato cause dor.
Crianças precisam se sentir valorizadas, amadas, protegidas. Não há livro que valha uma criança feliz.
Para que crianças negras e indígenas possam apreciar clássicos como os de Lobato ou de J.M. Barrie, é preciso haver mediação de adultos educadores, por meio de conversas ou de paratextos como notas de rodapé, entre outras opções. Elas também podem se divertir com adaptações — que se somam aos textos originais sem cancelá-los. O mais importante é que elas leiam muitos outros livros contemporâneos, onde sua aparência e ancestralidade sejam festejadas. É preciso que os educadores conheçam muito bem a história da literatura infantil para escolher os livros que lerão com elas e apresentar-lhes personagens que fazem parte do imaginário coletivo brasileiro.
Adultos que conhecem bem a literatura brasileira sabem que os livros de Monteiro Lobato são tão importantes para a literatura infantil como os de Machado de Assis para a literatura dirigida a adultos. Todos os autores contemporâneos de livros infantis devem algo à obra lobatiana, tenham consciência disso ou não. As inovações de Lobato estão no “DNA” da ficção nacional para crianças e jovens. Mesmo que seus livros fossem definitivamente cancelados, muito do que ele criou continuaria existindo nos ossos, na medula do que se escreve hoje.
Quanto às cartas racistas e à separação entre autor e obra… trato delas na terceira pergunta.
Adaptações, inspirações, mediações
2. Caçadas de Pedrinho tem expressões racistas como “macaca de carvão” e “carne preta”. O que fazer? Publicar notas explicativas ou suprimir trechos polêmicos?
Já existem edições com notas explicativas de vários livros infantis de Lobato, como as da Cia. das Letrinhas, que fazem parte de uma coleção coordenada por Marisa Lajolo. As notas e outros paratextos que apontam o racismo e demais questões sensíveis nos livros dessa coleção foram feitos por mim.
Há adaptações que suprimem os trechos polêmicos, como as feitas por Pedro Bandeira e Walcyr Carrasco para a editora Moderna, entre muitas outras. Tanto as adaptações como as edições críticas são excelentes, porque se somam às edições da obra original, que continua circulando, em domínio público. Em sala de aula, professores podem incentivar estudantes a criarem suas próprias notas explicativas, adaptações, reescrituras, novas histórias com as mesmas personagens. Acredito que logo aparecerão livros de autores negros que contem as histórias do Sítio do Picapau Amarelo do ponto de vista de Tia Nastácia, por exemplo.
Filmes como Enola Holmes, protagonizado por uma irmã detetive e feminista de Sherlock Holmes, são bons exemplos do potencial de reinvenção de clássicos permeados por preconceitos.
Não existe, até onde sei, edição com notas explicativas de Caçadas de Pedrinho, o mais polêmico dos livros lobatianos, porque foi o primeiro a ser denunciado como racista, em 2010. Deveria haver, porque é um livro que problematiza questões atuais: a devastação da natureza, a monstruosidade que existe em cada um de nós, o racismo, em uma narrativa envolvente e artisticamente sofisticada, que põe em cena múltiplas vozes, com diferentes visões de mundo.
Em determinada passagem, que você menciona, as personagens precisam subir em mastros para fugir de onças. O narrador conta: “e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro”. Os outros personagens também são comparados a macacos, mas o atributo “de carvão” é reservado a Tia Nastácia. Em outra passagem, as onças enxergam as personagens amedrontadas nos mastros como nós enxergamos espetinhos de carne. Percebendo que Tia Nastácia começa a escorregar, um “onço” diz: “O nosso banquete vai começar pela sobremesa. O furrundu está dizendo que não aguenta mais e vai descer…”. A onça, que não é humana, desconhece o racismo e vê tia Nastácia como um doce delicioso.
No final da história, os personagens andam num carrinho puxado pelo rinoceronte Quindim, libertado de um alemão que o sequestrara na África. Dona Benta sai do carrinho para tratar de algo e volta ao terreiro. Segue-se o trecho: “Queria continuar o seu passeio no carrinho. Mas não pôde. Tia Nastácia já estava escarrapachada dentro dele. — Tenha paciência — dizia a boa criatura. — Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá... “. A voz de tia Nastácia contraria a perspectiva das onças e a do próprio narrador. Ela não é nem comida de onça, nem macaca de carvão: é gente, toma as rédeas do que quer e sabe criticar as hierarquias sociais com mordacidade.
É como se Lobato encenasse o próprio racismo (e o de muitos leitores), ao qual tia Nastácia se opõe — tomando o lugar da sinhá, no carrinho puxado emblematicamente por um animal africano, e tomando o lugar do narrador, na fala final. A encenação não deixa de ter algo de ensino. Os livros de Lobato são repletos de passagens assim, bastante subversivas — pelo menos naqueles anos de 1930 e 1940.
Obviamente, as interpretações dessa passagem podem ser muito variadas, como acontece quando lemos literatura. A melhor interpretação do livro e da polêmica foi produzida por meu colega Wilson Alves-Bezerra, no calor do momento, e saiu no jornal Zero Hora em 2010. Copio abaixo o final do artigo “Lobato, nosso contemporâneo?”, que é primoroso e pode ser lido na coletânea Páginas latino-americanas: resenhas literárias (2009-2015):
Salvo engano, pode-se ler na sentença muito da diferença e do desajuste do negro que passou da condição de escravo à de serviçal livre. A tensão entre o igual (“ser gente”) e o ser diferente (“ser negro”), e com isso ter o direito de reivindicar um lugar no grupo social, revela-se na frase acima. A saída da escravidão não implica apenas o direito do salário, mas também o direito ao supérfluo, como a partilha do ócio com os demais. Apagar em Lobato esse lugar movente e contraditório em que o negro está inserido é buscar o esquecimento da história, com seu peso e suas tensões. É também, no limite, reafirmar de modo pueril uma democracia racial brasileira, que em verdade não há, e que tampouco será construída com histórias da carochinha.
É por causa de reflexões assim refinadas e fecundas que eu gosto muito da polêmica e dos debates sobre Monteiro Lobato.
Eugenia, ironia, distopia
3. Pode-se dizer que, se vivesse hoje, Lobato não teria usado aqueles termos, nem defendido ideias como eugenia e Ku Klux Klan? Ou é impossível dizer? Por quê?
Penso que é possível dizer qualquer coisa; o problema é fundamentar o que dizemos. O passado nunca pode ser restaurado plenamente. Só temos acesso ao passado por meio de vestígios, de documentos que chegaram até nós, e de discursos que interpretam esses documentos, como artigos e livros de história. Quando alguém descobre um “novo” documento do passado, como as cartas de Lobato de teor racista, precisa interpretá-lo, o que é mais difícil de fazer do que parece. Pessoas mentem em cartas (como o próprio Lobato admitia fazer), fingem interesses para agradar os outros, são irônicas, satíricas, sarcásticas etc.
Lobato era um satirista, que usava ironia, sarcasmo e exagero em doses amplas nos seus escritos públicos e privados. Seus contemporâneos costumavam compará-lo ao irlandês Jonathan Swift, autor das Viagens de Gulliver e de Uma Proposta Modesta para Impedir que os Filhos dos Pobres Sejam um Fardo para os Seus Pais ou para o País, e para Torná-los Benéficos ao Público. Nesse ensaio satírico de 1729, um narrador fictício sugere que os pobres deveriam vender seus filhos como carne para os ricos, e detalha os “benefícios” da ideia para resolver os problemas da fome.
Quem estuda Monteiro Lobato precisa ter em mente que muito do que ele escreveu e falou era sátira violenta, que não deve ser lida ao pé da letra. Para distinguir o que é sátira do que é sinceridade, a gente tem de pesquisar muito o texto e seu contexto.
São bem conhecidas as cartas de Lobato ao médico Arthur Neiva, nas quais ele faz afirmações como “País de mestiços onde brancos não têm força para organizar a Ku-Klux-Klan é país perdido”. Lobato realmente tinha ódio mortal aos negros e defendia a organização extremista, ou estava sendo satírico e sarcástico em carta privada, sabendo que a sátira seria decodificada pelo amigo? Para tentar entender documentos assim, é preciso reunir o maior número de outros documentos, a fim de cruzar dados e criar interpretações fundamentadas por uma variedade de fontes. É o que fazem historiadores, e dá um trabalho danado, porque a montanha de documentos de e sobre Lobato é um Everest que não pára de crescer e se modificar.
Ainda que gigantesca, a montanha de documentos é parte ínfima da vida de Lobato. As conversas, as ações, as ilusões, as brigas, os arrependimentos, as tomadas de consciência, os rompimentos, os afetos e tudo o mais que constitui uma vida estão fora do nosso alcance. Talvez, a compreensão de muitos dos atos e falas de Lobato estivesse fora do alcance dele mesmo. Não temos total consciência e compreensão de quem somos e do que fazemos.
Um dos principais documentos para entender a eugenia de Lobato é seu livro O problema vital (1919), baseado em informações da expedição científica de Arthur Neiva e Belisário Penna, que viajaram pelo interior do Brasil e constataram as péssimas condições sanitárias da população. Esse livro é uma espécie de manifesto em favor da saúde pública: o verdadeiro “problema vital” do Brasil não seria a raça ou a cultura, mas a falta de saneamento. A solução para o progresso do país, conforme Lobato, passava pelo combate aos parasitas e pela cura do povo. Uma frase famosa do livro é “O Jeca não é assim, ele está assim”: a apatia não seria resultado de degeneração racial, mas sintoma de doenças negligenciadas e debilitantes. O conteúdo do livro não se alinha à defesa de métodos violentos de extermínio como os da Ku Klux Khan, para suposta “melhoria racial”, mas denuncia um problema que, vergonhosamente, ainda é fundamental no nosso país, pois milhões de brasileiros vulneráveis têm as vidas atingidas e ceifadas por falta de água e esgoto tratados.
A história da eugenia no Brasil é complexa e ainda está sendo pesquisada. O artigo As ideias eugênicas no Brasil: ciência, raça e projeto nacional no entre-guerras, de Vanderlei Sebastião de Souza, é uma boa porta de entrada no campo das interpretações históricas das ideias e ações eugenistas no país. Pelo que consigo entender, as ações eugenistas de Monteiro Lobato se enquadram na vertente que propunha políticas de saneamento, higiene, educação e outras medidas para melhorar as condições do meio. Ao que indicam os papéis que conheço, ele era mais entusiasta das ideias eugenistas de Roquette-Pinto do que das de Renato Khel, embora tenha tido alguma proximidade com os dois.
Será que ele era um racista que fazia comentários infames em cartas, mas agia de modo muito diferente com pessoas negras na vida real, ou será que seus atos (pelo menos os registrados) provam que ele realmente era um membro da Ku-Klux-Khan em solo brasileiro? Os documentos pendem para a primeira hipótese. De qualquer modo, o problema leva a questões filosóficas antigas e permanentes: se o preconceito ou a virtude são expressos apenas na vida privada, e diferem das ações públicas, como julgá-los? Se alguém publica nas redes mensagens antirracistas, para ficar bem na “fita”, mas age de forma racista no dia-a-dia, do que adianta? Até onde vai o direito de dizer coisas estúpidas em ambientes privados? Há mais complexidades entre mensagens e ações do que costumamos admitir.
Muito do que leio sobre o possível engajamento de Lobato em prol de ideias eugenistas de esterilização e extermínio de populações consideradas “inferiores” fundamenta-se num romance que ele publicou em 1926, O presidente negro. Esse tipo de fundamentação é questionável, porque faz uso de uma obra literária polissêmica como se fosse panfleto político com propostas objetivas.
O presidente negro é narrativa de ficção científica, que transcorre em dois tempos: no Brasil dos anos de 1920, um brasileiro, Ayrton Lobo, vê acontecimentos do ano 2228 nos Estados Unidos, por meio do porviroscópio, um aparelho que permite “assistir” aos tempos futuros. Como toda ficção científica, o romance projeta num cenário futuro problemas do presente; no caso, o apartheid racial norte-americano, a força das teorias eugenistas, o linchamento e a esterilização de pessoas negras, o medo da eleição de um presidente negro, que sempre era lembrado em notícias de jornal.
Lobato especula para onde poderiam levar as teorias eugenistas (entre outras) e as disputas raciais dos norte-americanos de seu tempo. No romance, os brancos não se conformam com a eleição de um presidente negro — um estadista repleto de todas as qualidades e virtudes necessárias para governar. Homens e mulheres brancos se unem para esterilizar os negros por meio de um alisante de cabelos. O plano dá certo.
O romance é mal escrito e chato, provavelmente porque Lobato estava falido e desesperado por dinheiro na época, mas essa é outra história. A premissa é instigante e perturbadora, como é comum em distopias: o racismo norte-americano não desapareceria com o tempo e seria maior do que o respeito pelas leis e pelas vidas dos cidadãos negros. Quando vejo o “racismo científico” crescendo nos EUA de Trump, as manifestações nazistas de gente dos altos escalões, as promessas de melhoramento genético das startups de bilionários, as ações ilegais do ICE, voltadas principalmente contra pessoas de pele escura… penso no presidente branco criado por Lobato.
Há outras sugestões provocativas no romance: as pessoas negras compram o alisante de cabelo porque não aceitam sua negritude e querem se parecer com os brancos. O brasileiro que narra a história está mais preocupado em paquerar Miss Jane, a loira americana dona do porviroscópio, do que com o extermínio de gente distante. Como tantos de nós, ele não parece se preocupar muito com possibilidades horríveis do futuro; quer aproveitar a vida no seu presente. O livro termina com um beijo cinematográfico entre Ayrton e Miss Jane. Na minha leitura, o final celebra a mestiçagem brasileira, provedora de vida, em contraponto ao apartheid norte-americano, gerador de morte. Há muito mais na obra, que vem sendo exaustivamente discutida. Para mim, o livro é péssimo, feito para gerar polêmica e vender muito, o que não aconteceu. Não o vejo como panfleto político, até por causa do nonsense, outra marca de Lobato, que mina a “seriedade” das teorias eugenistas ao longo da narrativa.
Poucos anos antes de O presidente negro, Lobato havia publicado O saci-pererê: resultado de um inquérito, que reúne depoimentos, pinturas, esculturas e músicas sobre o saci, além do manifesto por uma arte que não imitasse os franceses, mas valorizasse a cultura nacional e o povo brasileiro. Os símbolos desse manifesto artístico eram o saci e o Jeca Tatu. Naqueles anos, Lobato também publica O saci para crianças e Narizinho arrebitado, com enorme protagonismo de tia Nastácia, como expliquei.
Ele procura Lima Barreto, que considerava o maior escritor do tempo, e edita seu livro Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), no qual há explícitas críticas a teorias eugenistas. Hoje, Lima Barreto é autor consagrado, mas, naquela época, ele mesmo tinha de publicar seus livros. Lobato investe muito no livro (que não vende), no autor (que recebe boa porcentagem de direitos autorais) e na relação com Lima Barreto, o qual, por sua vez, apreciava Lobato. O editor também investe em outros autores mestiços, como Viriato Correia e Belmonte, e num autor preto hoje esquecido, Gabriel Marques, porque dizia que sua galeria de editados precisava ter foto de um autor preto “sem chapéu”. Parece que o cabelo afro assumido era importante para Lobato.
Quem olha os catálogos das editoras de Lobato vê informações muito interessantes e difíceis de articular: ele publicou Anais da Sociedade Eugênica de São Paulo, e também um romance que satiriza explicitamente esse anais: Madame Pommery (1920) de Hilário Tácito. Os livros de eugenistas como Renato Khel e Arthur Neiva vendiam bastante, e provavelmente financiaram os livros de autores negros (e de feministas, como Ercília Nogueira Cobra, e modernistas como Oswald de Andrade), os quais vendiam pouco. Tudo isso e muito mais precisa ser levado em consideração para tentar reconstituir o passado de Lobato.
Os catálogos das suas editoras apresentam autores com diferentes pontos de vista sobre os mesmos problemas brasileiros. A insistência em criar ambientes de debate é um dos padrões constantes nos documentos de Monteiro Lobato. Se não era possível juntar diferentes pessoas e suas diferentes perspectivas, ele os simulava em artigos e obras de ficção. Outra possível chave de leitura para entender os documentos lobatianos é esse constante exercício de pensar por diferentes pontos de vista, que ele expressou no artigo Introito, de 1920, entre muitos outros:
A verdade não existe, a vida é uma irisação, e tanto está certo Ruy como Seabra. Tudo varia com o ponto de vista. O Rio é um para quem o vê da Avenida; é outro do alto do Pão de Açúcar; quatrocentos metros apenas acima do mar, não é mais nem um, nem outro, e sim um quadro da natureza como não há igual. Afirmar que o verdadeiro Rio é este ou aquele é de ótima política para o partido que formamos, mas nada filosófico.
Se eu seleciono apenas os documentos de teor racista para reconstituir o “verdadeiro” passado de Lobato, farei um tipo de interpretação. Se reúno apenas documentos sem teor racista, farei interpretação completamente diferente. Se não levo em conta que documentos são alguns poucos vestígios do passado, e não todo o passado, farei intepretação péssima. Se incluo todos os documentos conhecidos, lembrando que muitos podem ter sumido e outros podem aparecer, ainda precisarei de vastos e diversos conhecimentos teóricos para realizar uma boa interpretação. O historiador J. C. Sebe Bom Meihy explica bem melhor do que eu os problemas da escrita da história neste artigo que saiu hoje: Lobato racista: o que a história tem a dizer.
Dependendo do meu repertório, das minhas crenças e conhecimentos, entre outros fatores, construirei minha interpretação dos documentos. Existem disputas sobre o que ocorreu no passado porque existem diferentes interpretações do que ocorreu, como e por que ocorreu. Um documento interpretado por pessoas com pontos de vista distintos é como o Rio visto da Avenida ou do Pão de Açúcar ou de um drone. Qualquer que seja a perspectiva, porém, o intérprete precisa se lembrar de que um ser humano é sempre muitos, e pode mudar, voltar atrás na mudança, mudar para algumas pessoas e não para outras, fingir que mudou etc.
Tendo a interpretar Lobato como um homem que mudou muito, revendo e abandonando preconceitos, inclusive em relação a si próprio. Nos jornais de seu tempo, Lobato é comumente chamado de “caboclo”, “amarelo” e termos afins; ele não era visto como branco por parte significativa do meio letrado. Nos anos de 1930, quando a eugenia tomava rumos horripilantes com o nazismo, Lobato publicou em vários jornais o artigo “Eu quero ajudar o Brasil”, no qual louva a superioridade moral de um homem negro. Ele foi um dos poucos intelectuais que combateram a ditadura de Getúlio Vargas, que flertava com o nazismo, fazendo inclusive denúncias contra o governo para a BBC de Londres, em discurso de apoio à luta dos aliados contra Hitler.
Quando preso, em 1941, escreveu carta a Fernando Costa, interventor de São Paulo, denunciando prisões injustas de homens negros inocentes que eram torturados. No fim da vida, publicou uma das primeiras narrativas infantis antirracistas, A violeta orgulhosa, na qual o Visconde explica, por meio de plantas, que não existe superioridade racial. Se lembrarmos que a eugenia começou com cientistas estudando plantas, o recado do conto contra falsos pressupostos da eugenia era poderoso — especialmente se notamos, no plano de fundo, Tia Nastácia fazendo serviços domésticos, porque fora sequestrada em Angola e escravizada no Brasil.
Há muitos documentos mais que indicam mudança no modo como Lobato pensava questões raciais. Existem as cartas de crianças negras a Lobato, de conteúdo bastante significativo, que foram estudadas por Patrícia Raffaini e Emerson Tin. Você pode conhecê-las neste vídeo. Infelizmente, as cartas de Lobato a essas crianças não foram ainda encontradas. Existem documentos como uma carta que Lobato escreveu em 1947, pouco antes de morrer, a Vladimir Guimarães: “E o candomblé da Bahia? Nunca uma festa me impressionou tanto. Ainda voltarei aí com mais tempo para estudar o candomblé. Por aqui, vou ler tudo, tudo o que existe sobre o assunto. O candomblé da Bahia dá vontade da gente ser negro, bem preto”. Sinceridade ou sarcasmo?
Como sou professora, preciso acreditar que as pessoas podem mudar para melhor, podem se educar ao longo da vida. Se eu não acreditar nisso, minha profissão e minhas ações antirracistas fazem pouco sentido. Essas crenças, que sei bem serem frágeis, sustentam em parte minha interpretação de que Lobato teria mudado para melhor e abandonado preconceitos. Outras pessoas, com outras biografias, interpretam de maneira diferente os mesmos documentos. História é interpretação. Por isso, há muitos livros e artigos diferentes, muitos debates sobre os mesmos fatos, até que se chegue a um consenso — ou até que uma determinada interpretação “ganhe”.
É o que aconteceu no caso das histórias do modernismo, que geralmente apresentam Lobato apenas como o autor de crítica avassaladora à obra de Anita Malfatti. Os fatos documentados de que ele publicou todos os escritores (e alguns pintores) modernistas em sua editora e na Revista do Brasil, que era de sua propriedade, são deixados de lado. Ele publicou Os condenados, de Oswald de Andrade, e O homem e a morte, de Menotti del Picchia, com capas de Anita Malfatti, em 1922, ano da Semana de Arte Moderna. Provavelmente, muitos brasileiros só conheceram o trabalho de Anita pelas capas dos livros, distribuídos por todo o país. Esses fatos, embora documentados, interpretados e divulgados, geralmente são omitidos por historiadores do modernismo. Por sinal, na mesma época em que escreve a carta a Arthur Neiva, afirmando “País de mestiços onde brancos não têm força para organizar a Ku-Klux-Klan é país perdido”, Lobato escreve ao mestiço Mário de Andrade, elogiando Macunaíma e propondo traduzir e publicar a obra (então quase desconhecida) nos Estados Unidos.
Quando eu apresento documentos racistas de Monteiro Lobato e os contraponho a documentos antirracistas (na minha interpretação), pode parecer que estou usando aquela calculadora imaginada por Claire Dederer, que avaliaria a hediondez dos crimes versus a grandiosidade da arte e emitiria o veredicto de que podemos ou não consumir a obra de determinado artista. A calculadora imaginária é usada por muita gente que pensa a condição humana com parâmetros mecânicos impossíveis de aplicar na vida real. O lance atual, porém, é mais aparecer como criatura imaculada nas redes sociais do que pensar pra valer as máculas humanas.
Nós separamos autores de obras o tempo todo, porque não conhecemos as biografias da maior parte dos criadores e porque vivemos cercados de coisas maravilhosas criadas por mentes brilhantes e monstruosas. Milhões de brasileiros usam e amam fuscas, sem associá-los a Adolf Hitler, que idealizou o “carro do povo” (volkswagen), e aos engenheiros nazistas que o planejaram e construíram, liderados por Ferdinand Porsche, integrante da SS. Quem curte Porsches conhece as monstruosidades de seu criador? Posso citar milhares de exemplos assim. Há quem boicote obras ligadas a monstros. Lembro a professora Ecléa Bosi, que não tomava aspirina por causa das atrocidades da Bayer nos campos de concentração nazistas.
Entretanto, quando a gente entra num fusca, não se sente entrando na consciência de Hitler e misturando a nossa consciência com a dele. No caso de obras de arte, especialmente de literatura, é mais difícil fazer a dissociação, porque a gente tem a impressão de entrar em contato íntimo com a consciência do autor quando lemos um texto que ele (ou ela) produziu, por mais que saibamos estar lendo textos “fingidos”, como diria Fernando Pessoa (também acusado de racismo e colonialismo, por sinal). Então, quando conhecemos dados biográficos de um autor que nos parecem monstruosos, tendemos ou a transformá-los em chaves de leitura da obra, ou a fazer o exercício de dissociá-los dela, ou, ainda, as duas coisas ao mesmo tempo. Nossos cérebros são capazes de articular duas ou mais ideias contraditórias.
Quando penso nesse tipo de dilema, lembro-me dos versos finais do poema Motivo, de Cecília Meireles, que trata do fazer literário:
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Escritores não sabem, ou sabem muito pouco, se vão edificar ou destruir, se vão permanecer ou passar. A obra de arte é tudo. O “sangue” das obras literárias é bombeado por nós, leitores. A obra vive, e pode se eternizar, enquanto nós transferimos nosso sangue — nossa imaginação — para o texto, fazendo com que suas asas vibrem. Literatura vive e pulsa com nosso sopro e nosso sangue.
Monteiro Lobato está mudo desde 1948. Se sua obra continua a viver e voar, é porque leitores a insuflam com seus imaginários, suas biografias, suas emoções — seu amor, sua perplexidade, sua revolta, sua alegria, seu ódio.
P.S. 1. Se você acredita que é um ser humano sem máculas, e que será muito bem visto pelas gentes do futuro, pare de se enganar. O celular ou o computador em que lê esse texto tem bateria com cobalto, que vem sujo de sangue de minas do Congo onde ocorre escravização. Crianças famintas trabalham até doze horas em buracos estreitos e perigosos para que você e eu possamos ficar deslizando o dedo por telinhas luminosas. Leia Cobalt Red: How the Blood of the Congo Powers Our Lives, de Siddharth Kara. É esse tipo de horror que deveríamos estar discutindo.
P.S. 2. A leitura equivocada de cartas alheias é um grande tema da literatura. O melhor romance que conheço sobre gente que interpreta cartas dos outros (com muitas certezas e muitos erros) é Reparação, de Ian McEwan. Ano passado, o autor lançou o romance What we can know, que recomendo muito. É uma ficção científica situada em 2119-2220, num Reino Unido parcialmente submerso, com pouca gente e escassez de comida, em razão de mudanças climáticas e guerras. Um professor de literatura (eles ainda existem) pesquisa milhares de documentos digitais de um poeta da nossa época. Ainda assim, tem dificuldade para entender e interpretar o que realmente aconteceu no passado… e mais não digo, para não estragar as surpresas do livro, que é sensacional.
P.S. 3. Este texto foi revisado em 10 de maio de 2026; algumas “gralhas” tinham me escapado.


Aprendi muito com seu texto! Precisamos demais que as discussões sejam baseadas em pesquisas melhores, que tragam mais matizes, que lutem contra essa simplificação e superficialidade reinante.
Professora, como é bom te ler por aqui! E, realmente, estudar Lobato é se deparar com uma figura contraditória e diversa, bem humana demasiadamente humana - segundo Nietzsche (não a toa era o filósofo de que ele mais mencionava pelo que me lembro, rs). São muitos os Lobatos e é muito redutor limitá-lo a uma coisa só.